Quinta-feira, Maio 31, 2007

Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,

sois inofensivas?

 

Estremeceis. Não posso tocar-vos.

Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada

queima.

                                    

E fico exausta quando vos vejo

estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da

boca.

                                

Uma boca há pouco ensanguentada.

Pequenas orlas de sangue!

 

Há nela um fumo que não consigo tocar.

Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

 

Se eu pudesse esvair-me em sangue ou dormir!...

Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

 

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de

vidro,

trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.

 

Sylvia Plath

Escrito por Micas em 14:55:25 | Link permanente | Comments (0) |

Duas mãos que se entrelaçam, e nada entre elas.
Uma alma sem corpo poderia cruzar-se com outra alma
neste ar límpido e sem disso se aperceber...
Uma alma atravessa a outra, efémera como fumo
e totalmente ignorante do caminho que seguia.

Sylvia Plath

 

 

Escrito por Micas em 14:52:23 | Link permanente | Comments (0) |

Espero sempre por ti o dia inteiro, 
Quando na praia sobe, de cinza e oiro
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
 
Sophia de Mello Breyner



Escrito por Micas em 14:48:40 | Link permanente | Comments (0) |

 

Num deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país em nome

Ou numa terra nua

 

Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda do q a tua.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen



 

 
Escrito por Micas em 14:44:35 | Link permanente | Comments (0) |

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen



Escrito por Micas em 14:43:26 | Link permanente | Comments (0) |

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen




Escrito por Micas em 14:42:55 | Link permanente | Comments (0) |

Quanto vive o homem, por fim?
Vive mil anos ou um só?
Vive uma semana ou vários séculos?
Por quanto tempo morre o homem?
Que quer dizer para sempre?



Pablo Neruda

Escrito por Micas em 11:40:18 | Link permanente | Comments (0) |

linda, não é?!

 isabel lhano

Escrito por Micas em 11:01:30 | Link permanente | Comments (2) |

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, a minha irmã mais nova

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viúva. cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.

José Luís Peixoto

 

Escrito por Micas em 10:38:22 | Link permanente | Comments (0) |

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

 

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,

As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam.

 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas

 

Muitas mulheres tranformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos

 

As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração

 

Daniel Faria

Escrito por Micas em 10:33:39 | Link permanente | Comments (0) |
1 2 3 4